Com a ajuda do software gratuito de reprodução de música digital
iTunes, da Apple Inc., especialistas descobrem que são uma fraude os
CDs de uma cultuada pianista inglesa.
A edição de 28/1 da revista Veja publicou reportagem de Marcelo Marthe
na qual diz que, saudada como "a maior pianista que quase ninguém
ouviu" e falecida em junho do ano passado aos 77 anos, Joyce Hatto
interrompeu a carreira de concertista em 1976 para tratar-se de câncer.
Todavia, seu marido, proprietário de uma pequena gravadora, por volta
do ano 2000 começou a lançar CDs em que a pianista interpretava
conhecidas peças clássicas.
"Sempre às voltas com a quimioterapia, Joyce era capaz de tocar músicas
de compositores tão distintos quanto Haydn e Prokofiev, com idêntica
fluência e precisão. Foi um retorno triunfal", escreve Marthe.
No entanto, segundo ele, na semana passada a revista inglesa Gramophone
trouxe o que podem ser evidências de fraude no trabalho de Joyce, que
foi "dedurada" pelo iTunes quando, a serviço da revista, um crÃtico de
arte tentou ouvir um CD da pianista usando o software da Apple e o
programa atribuiu a autoria das interpretações a outro músico. A
façanha é possÃvel graças ao sistema de códigos digitais implementado
no software que identifica e cataloga as músicas em execução.
"Por si só, a informação do iTunes não bastava para comprovar a
existência de um golpe. Por isso, a Gramophone contratou especialistas
para dissecar as obras de Joyce com precisão digna de uma investigação
da série C.S.I.", conta Marthe.
Segundo ele, a revista contratou um renomado engenheiro de som para
analisar o material. Comparando as ondas sonoras das interpretações da
pianista em seus CDs com as gravações que teriam sido copiadas, o
engenheiro descobriu que, em algumas faixas, a velocidade da execução
foi artificalmente aumentada em até 15%. Desfazendo-se o artifÃcio,
constatou-se que a intepretação dessas mesmas peças era idêntica às dos
pianistas Carlo Grante e Marc-André Hamelin.
"Noutro disco, o pianista russo Vladimir Ashkenazy e a Filarmônica de
Viena foram alvos da rapina. Uma gravação deles foi copiada num CD em
que Joyce supostamente toca ao lado de uma orquestra polonesa regida
por um certo René Kohler. Não há outros registros da existência dessa
filarmônica –- tampouco do maestro", relata Marthe.
Valendo-se de método ainda mais preciso - a análise de paisagens
sonoras -, pesquisadores da Universidade de Londres também contestam a
autenticidade das gravações de Joyce Hatto, informa Marthe. O estudo
dos pesquisadores, realizado meses antes de a discografia de Joyce ter
sido posta em dúvida, levantou suspeitas sobre sua interpretação das
peças folclóricas (mazurcas) de Frédéric Chopin (1810-1849) após
constatar-se que eram idênticas a outras já existentes.
Segundo Marthe, Nicholas Cook, coordenador do projeto da Universidade
de Londres, disse à Veja que há muito já se sabe que "há muita
enganação nos discos de música erudita. Com as tecnologias de hoje,
está ficando mais difÃcil esconder as falcatruas".
William Barrington-Coupe, viúvo de Joyce e empresário - e suposto
mentor das fraudes -, evita aparecer desde que o escândalo estourou. "À
revista Gramophone, deu uma declaração bem à moda dos polÃticos
brasileiros: disse que estava surpreso e esperava que uma 'investigação
cuidadosa' chegasse à verdade dos fatos", relata Marthe.
Autor/fonte do artigo: MacPress (
http://www2.uol.com.br/macpress/noticias/c029s0584...)