
Carlos Haag
Como quase tudo que se passa no verão, as utopias levantadas pela revolução portuguesa de 25 de abril de 1974 duraram pouco. "Sei que estás em festa, pá/ fico contente/ e enquanto estou ausente/ guarda um cravo para mim", entusiasmou-se Chico Buarque com o que parecia ser a primeira experiência comunista no país da Europa Ocidental desde o início da Guerra Fria. Quatro anos mais tarde, os versos foram alterados para um tom mais nostálgico, embora mais realista: "Foi bonita a festa, pá/ fiquei contente/ e inda guardo renitente/ um velho cravo para mim". Era a Revolução dos Cravos, por causa das flores colocadas por civis nas armas dos militares que derrubaram o que restava da ditadura de Salazar, iniciada em 1932, e continuada, já apodrecida pelos problemas de descolonização, por Marcelo Caetano. As flores murcharam e o movimento caiu no esquecimento, visto por muitos como mais uma "do português". Ledo engano.
O império derrotado, do brasilianista Kenneth Maxwell, se não revive os cravos, mostra que os seus protagonistas não usavam ferradura. Mais do que um golpe na "cozinha da Europa", o movimento de 25 de abril provocou ondas (mesmo a Terceira Onda) altas na política internacional e, segundo o pesquisador, pode ter sido responsável pelo fim da Guerra Fria e pela derrocada do império soviético. Nem mesmo os Estados Unidos saíram ilesos do mar de cravos. Pego de surpresa pelo fim da ditadura, o governo americano, em particular por causa de Henry Kissinger, esteve prestes a adotar uma "solução chilena" para o affair lusitano. Mais: com o fim do império português, o sucesso dos soviéticos no apoio aos movimentos nacionalistas do Terceiro Mundo humilharam a administração Carter e obrigaram a América a gastar fortunas em armas como prevenção. O mesmo tipo de gastos foi também, no final das contas, a causa do fim da União Soviética.
Igualmente o Sul da África, ao perder o amortecedor proporcionado pelas colônias portuguesas governadas por brancos, viu o apartheid sendo corroído aos poucos até a sua extinção na África do Sul. O mundo ficou contente, pá, quem diria, com o movimento português, a democratização que foi a primeira de uma onda de democratizações que ocorreram na América Latina, na Europa do Leste, na ex-URSS, bem como serviram de modelo de como não se fazer uma transição, usado pela Espanha alguns anos mais tarde, com o fim da ditadura franquista. Não é pouca coisa. Maxwell defende, com sucesso, a importância da revolução lusa vista, afirma, por muitos, como uma fantasia produzida pela imaginação dos esquerdistas, cujos erros, aliás, ele elenca com precisão.
No início de tudo estava o colonialismo, ou melhor, a luta inútil para a sua manutenção. "Portugal foi a última potência européia a se apegar à panóplia da dominação formal, pois, ao contrário de seus colegas da Europa, não tinha condições de pagar pelo neocolonialismo. Sua fraqueza econômica fez com que a intransigência fosse inevitável", escreve Maxwell. Mas os militares estavam cansados e foi o livro de um deles, o general Spínola (com seu monóculo prussiano), chamado Portugal e o futuro, que deu a deixa para a revolução. Na obra, o militar defendia a soberania das colônias. Na vida real, era cauteloso e pregava o fim lento do colonialismo.
Os capitães de abril leram o livro com outros olhos e Caetano, acovardado, entregou o governo para Spínola, que, mostra Maxwell, recebeu mais créditos do que devia pelo movimento. No vácuo de poder, a esquerda viu a chance de um Portugal vermelho como os cravos. A ilusão durou o verão de 1975. Acossada pelo Ocidente, que prometia o isolamento de um Portugal "mal-comportado", a esquerda perdeu apoio popular, não soube controlar a situação econômica precária com o fim das reservas deixadas pelo salazarismo, esperou demais da União Soviética e, mais grave, usou as instituições decrépitas para governar a nação. No fim, venceu o centro socialista, com Mário Soares. E a democracia.